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A escrita é uma habilidade de aprendizado constante, assim como a perspectiva dos cotidianos.
Aqui pousa meu esforço nesse traquejo.

 
 

Partida de Jaime Sodré inicia novo ciclo para quem fica



Imagem de Mila Cordeiro/Agência A Tarde

Quando um mais velho parte, ele deixa um legado. Para quem fica, nasce o compromisso de transmitir o que foi ofertado em vida. Ao ser confirmado o falecimento do Professor Doutor Jaime Sodré, no dia 07 de agosto de 2020, uma das primeiras reações comunicativas de amigos, familiares e admiradores do multiartista e educador foi recontar os momentos vivenciados ao lado dele, relembrar acontecimentos em que ele esteve presente e reverenciar a trajetória de uma vida que por 73 anos concentrou aprendizados.

Esse movimento deu início a um novo ciclo para quem fica. A partir desse momento, estabelece-se um elo entre essa comunidade que tem como principal objetivo manter viva a memória de quem partiu, que é, portanto, história ancestral. Aliada à importância intelectual, política, social e religiosa, o professor Jaime, como eu gosto de chamar, era um encorajador de vidas. Suas falas – públicas ou privadas; escritas ou ditas – são da linhagem que abalam as estruturas subjetivas, dignas de um griot (guardiões da tradição).

Professor Jaime é um nobre das palavras – sigo conjugando no presente porque a morte não é o fim para a tradição religiosa de origem africana. E é nessa não conclusão que se dá a origem da preservação de um legado. O Doutor em Educação pela Uneb e Tata Xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara nos presentou com escritos que navegam com a incessante resistência dos intelectuais negros e negras no espaço acadêmico, e que desembarcam no quilombo das artes negras. Com essas publicações, professor Jaime dialogou com a negritude do ser em um balaio repleto de ideias e ideais de combate ao racismo e à intolerância religiosa.

São canções, livros, artigos, textos acadêmicos, entrevistas, artes visuais e poemas, disponíveis nos âmbitos virtual e físico, que vão nos ajudar a manter esse legado vivaz e presente no cotidiano das pessoas que ainda estão aqui e naquelas que ainda virão. Esse é o nosso começo e o nosso compromisso com Jaime Sodré, agora ancestral. Adupé por tanto!

Texto originalmente publicado no dia 11 de agosto de 2020 na Revista Afirmativa, podendo ser acessado aqui

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