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A escrita é uma habilidade de aprendizado constante, assim como a perspectiva dos cotidianos.
Aqui pousa meu esforço nesse traquejo.

 
 

Juruna: O cervejeiro do condomínio

Um bar dentro do condomínio? A pergunta já não gera espanto em tempos de Bela Vistas e Alpha Villes, mas em 1984 ter um boteco no andar de baixo era sinal de exclusividade entre moradores de residências da classe média alta soteropolitana. Se o prestígio era ter um bar quase self-service, imagine quando o atendimento estava restrito a apenas dois prédios, o Água Azul e o Água Branca; Aí meus amigos, sem o perdão do trocadilho: o jeito era comer água.


Localizado ali, perto do Bompreço da Pituba, está o Água de Beber. Num desses convites de amigos que a gente não questiona e nem opina, fui parar lá. Era aniversário de alguém e um senhor baixinho, de cabelos brancos, vendia, modestamente, cervejas para os moradores e para os convidados da festa.


Seus traços lhe brindaram como alcunha o sobrenome do primeiro e único deputado federal indígena do Brasil, Juruna (Mário). Edmundo Fernandes de Souza no registro oficial é morador do Garcia, é filho de Maragogipe e é uma figura cheia de assunto. Entre cervejas, sarapatel e algumas doses de cachaça com erva-doce, dei ouvido a algumas das histórias que ele tinha pra contar, afinal metade de seus 63 anos aconteceu naqueles quatro metros quadrados entre 112 apartamentos.



Vacas gordas


“Ah, isso aqui já foi muito bom”, previne Juruna antes de me contar quantas caixas de cerveja vendia por semana. “Dia de sexta isso aqui estava lotado de gente. Eram 40 caixas em sete dias”, lembra saudoso. Numa semana do ano de 2016, ele não chega a vender nem 10 caixas.


De lá pra cá, muitos moradores deixaram de consumir as duas, três caixas que bebiam. Muitos deles construíram família ou se mudaram ou seguiram a ordem natural da vida. As dezenas de fotos coladas na parede denunciam no desbote de suas cores que o tempo continua passando, assim como a antiga caixa registradora que deixou de ser útil para o bolso para ser agradável aos olhos.


A vida também se encarregou de alinhar o baixo consumo com a redução do aluguel do espaço. Naquela época, o montante chegou a ser o mesmo valor do condomínio do Água Branca (4/4 e duas garagens), depois passou pro do Água Azul (3/4 e uma garagem) e culminou na quantia atual: “Duas caixinhas de cerveja que eu vendo já dá para pagar”, revela.



A caixa registradora serve hoje como depósito de documentos e cartões.

A caixa registradora serve hoje como depósito de documentos e cartões.

No tempo das vacas gordas, era Juruna e mais quatro funcionários que serviam a clientela residencial com as principais cervejas da Ambev e petiscos que iam do sarapatel ao caldo de sururu. Sem procura, não havia demanda para mais ninguém senão ele próprio que, desde 2000, passou a ficar responsável pelo caixa, pelo atendimento e pela cozinha.


Boa parte da vida


A ida de Juruna para o Água de Beber surgiu de um convite do síndico dos prédios, na época o advogado Jorge Almeida. Ambos se conheceram quando Juruna gerenciava um bar, também na Pituba. “Depois de um ano ele não quis mais, aí me perguntou se eu queria ficar sozinho, fizemos um acordo e eu toco o barco sozinho desde 1987”, resume ele para dizer que sempre gostou do serviço de atendimento ao cliente, embora já tenha trabalhado por dez anos no Polo Petroquímico.


Um morador que toma cerveja na mesa ao lado, enquanto espera ficar pronto o peixe que Juruna colocou para assar e uma jovem estudante que desenha o bar como resultado de uma tarefa escolar não escondem a importância que Juruna e o Água de Beber tem para aqueles condôminos. Casamentos, formaturas e nascimentos foram alguns dos grandes acontecimentos familiares para os quais Juruna foi convidado.


“Mas não vou no apartamento de ninguém, a não ser quando é para levar uma cervejinha”, faz questão de destacar, embora muitos dos moradores já tenham ido em sua casa.

“O povo aqui procurava apartamento por segundo, para vender ou alugar. Era um ponto estratégico. Hoje em dia tem apartamento que tem dois anos aí sem ninguém”. Dos cerca de 600 moradores que vivem nos dois prédios, a maioria é de pessoas idosas. Nestes mais de 30 anos passados entre a churrasqueira e a piscina, o Água de Beber foi cenário para desfiles de miss, pau de sebo, quebra-pote, encontros para doações, bingo e gincana. Em outros momentos foi protagonista da festa: a Lavagem do bar. Sendo Juruna, é claro, o anfitrião e o provedor da grande ocasião.


Se Juruna passou boa parte de sua vida entre esses dois prédios, muitos moradores passaram muitos dias de sua existência dentro do Água de Beber. Não é por menos que no local há uma placa em homenagem a um dos moradores, um norte-americano chamado Mr. Ted. “Ele vivia aqui dentro, de manhã, de tarde e de noite. Começou tomando uma cervejinha, passou pro uísque e terminou na vodka.  Depois levou dois anos lá em cima e nesses dois anos não bebeu mais e morreu”, sintetiza.


Conversa de bar


Aberto de terça a domingo, de 10h às 20h, com raras exceções, Juruna presenciou muitas histórias vividas entre aqueles dois prédios. Atrás de seu balcão, foi confidente e amigo – situação costumeira para quem trabalhar em um bar. “Eles vem aqui e conversam, as pessoas acham que Juruna sabe de tudo, mas nem tudo que se sabe, se fala. Se eu procurasse disse-me-disse eu não estaria aqui até hoje”, entrega.



Do lado de fora do Água de Beber, ele foi salva-vidas de dezenas de crianças na piscina e expectador de situações inusitadas, dignas de crônicas urbanas, como a de um traficante do Rio de Janeiro que morou no Água Azul. “Como ele era cadeirante, todo o tráfico ele comandava do computador de casa. Até que um dia pegaram ele, fecharam as duas garagens, foi polícia pra tudo que foi lado”, conta.


Ou do caso de uma moradora que foi acusada de ter sequestrado uma criança, quando na verdade a mesma havia sido deixada por uma amiga. “A imprensa veio pra cá para registrar o boato. Muita coisa eu já vi aqui viu e outras por sorte eu não vi”, diz ele, mencionando o caso de duas mulheres, uma jovem e outra adulta, que se jogaram de um dos prédios.


Memória é algo que não falta a Juruna. Ele lembra com riqueza de detalhes toda a trajetória de vida e, é claro, da lista dos devedores – sendo justamente a perda da memória deles a a maior preocupação do comerciante.


“Sempre vendi fiado. Comecei com oito dias, depois foi pra 15 dias, depois 30 dias. Outro dia mesmo faleceu um que esqueceu de pagar. Oito anos de fiado. Deixou o cano aí”.

Isso sem falar dos que “fogem” na calada da noite. “Eu não moro aqui. O morador aluga um apartamento, depois se muda de madrugada e eu não fico sabendo de nada”, diz.


É com a renda, ainda que pouca, do Água de Beber que Juruna mantém o “barraco”, onde vive com a esposa, a filha mais velha (a caçula faleceu), os netos e bisnetos. Aliás, lá no Garcia, se você procurar por Juruna vai dar com os burros n’água. Na região, ele é conhecido como Bebilhas ou não bebilhas – o apelido foi dado por um coronel que sempre lhe oferecia uma bebida enquanto estava sendo servido por Juruna e o mesmo só tomava um copo para satisfazer o cliente.


Definitivamente, as lembranças dos tempos de outrora são o alicerce da vida dura e cotidiana deste senhor, que ao mesmo tempo que sorri, chora ao falar dos caminhos percorridos e das experiências vividas, inclusive aquelas que tiraram, temporariamente, a coloração de sua pele, quando teve vitiligo em 2010 ou quando uma artrose nos dois joelhos o impediu de trabalhar.


Dizem que algumas pessoas ficam melhor com o tempo, assim como o vinho. O que dizer então daquelas que se assemelham à cerveja, sempre tão convidativas nos balcões e nas mesas de bar?

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